A tragédia em Itumbiara e a lógica perversa do machismo
O assassinato dos filhos de Sarah Araújo, em Itumbiara, seguido pelo suicídio do ex-marido, não se configura como um simples surto. É, antes, a manifestação cruel do machismo estrutural, que se revela na violência como punição à ousadia de uma mulher que busca recomeçar. Thales Machado não conseguiu lidar com o término do relacionamento e, dentro de uma lógica de posse distorcida, decidiu que, se ele não podia ter a família, ninguém mais a teria, utilizando os filhos como forma de infligir dor eterna à mãe.
O choque da reação social e a culpabilização da vítima
O que causa ainda mais espanto é a reação da sociedade diante da tragédia. Enquanto Sarah tenta sobreviver à imensa perda – o luto pelos filhos, a saudade, o reaprender a viver –, ela é julgada impiedosamente na internet. Comentários maldosos questionam suas roupas, suas decisões e seu modo de vida, espalhando a cruel insinuação de que "ela provocou", como se o fim de um relacionamento pudesse justificar um assassinato. Como se uma mulher não tivesse o direito de buscar a felicidade fora de um casamento infeliz.
O machismo que dita as regras e a dupla punição de Sarah
Esse comportamento explicita a força do machismo em nossa sociedade. A mesma cultura que moldou o homem que mata é a que, agora, busca incessantemente uma culpada: a mulher que sobrevive. Sarah é duplamente punida: pela perda irreparável dos filhos e pela condenação impiedosa da opinião pública. Questionam "por que ela não permaneceu no relacionamento?", como se a permanência fosse uma obrigação, como se a vida de uma mulher pertencesse ao seu parceiro.
A inaceitabilidade da violência e a posse como gatilho
Não existe mágoa que possa legitimar o ato de um pai tirar a vida de seus próprios filhos. Nenhuma separação justifica um assassinato. O que motivou essa tragédia foi o sentimento de posse, o ego ferido e a incapacidade de aceitar que uma mulher tem o direito de recomeçar sua vida.
A urgência de combater a cultura da violência e da culpabilização
Enquanto a sociedade persistir em tratar ameaças como meros "desesperos" e não como sinais de alerta, enquanto mulheres forem culpadas simplesmente por existirem, estaremos perpetuando a lógica perversa de que o amor pode justificar a violência.
A dor de uma mãe e a busca por justiça
Hoje, o que prevalece é a dor lancinante de uma mãe. E a indignação de saber que tudo foi prenunciado, mas, mesmo assim, ninguém conseguiu impedir. Que Sarah encontre forças para se reerguer. E que a culpa recaia sobre aqueles que realmente a merecem.
*Bosco Martins é escritor e jornalista.