Por muito tempo, a crença na memória curta do eleitor brasileiro serviu como justificativa para ações de governantes e grupos de interesse. Contudo, o cenário mudou, e o eleitor evoluiu: mais informado, desconfiado e atento às dinâmicas de poder, ele distingue a retórica da realidade.
Estudos recentes indicam que a corrupção ascendeu ao topo das preocupações nacionais, juntamente com a violência urbana e as falhas no sistema de saúde. Essa percepção reflete uma sequência de eventos, investigações e escândalos que dominaram o noticiário.
O cidadão acompanha, ainda que superficialmente, notícias sobre fraudes no INSS, esquemas financeiros obscuros e investigações de lavagem de dinheiro. Mesmo que esses casos estejam em fase de apuração, a impressão predominante é de que algo está errado.
Essa percepção é amplificada pelo ambiente institucional. A morosidade do Congresso, do Executivo e do Judiciário em oferecer respostas rápidas e eficazes gera um sentimento de impunidade ou de tolerância sistêmica.
As fraudes previdenciárias, por exemplo, impactam diretamente a vida de muitos brasileiros. As suspeitas no sistema financeiro, que deveria ser rigorosamente fiscalizado, reforçam a ideia de áreas protegidas por influências políticas. A infiltração de recursos ilícitos na economia formal também gera grande preocupação.
O eleitor não precisa conhecer os detalhes técnicos dessas operações; basta que perceba o padrão: investigações longas, figuras poderosas raramente responsabilizadas, discursos oficiais que minimizam fatos graves e explicações complexas que não refletem a realidade. O contexto é suficiente para formar sua opinião.
A política falha ao subestimar essa inteligência coletiva. O eleitor busca coerência, transparência e ação. A reação ao tratamento de escândalos como “ruído” ou “exagero” é o ceticismo, que alimenta o voto de protesto, a abstenção e a radicalização.
A preocupação com a corrupção reflete uma fadiga institucional. O eleitor vê um Estado ineficiente e protetor de si mesmo, serviços públicos precários e redes de poder atuando para se manter.
Em ano eleitoral, ignorar esse sentimento é um erro. Campanhas baseadas em marketing superficial correm o risco de fracassar, pois o eleitor está atento, compara discursos e conecta os fatos.
A democracia depende da confiança, que, uma vez abalada, não se reconstrói com propaganda. O eleitor percebe quando a política tenta esconder o óbvio e responde nas urnas ou fora delas.
por Gaudênco Torquato – escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político